15 novembro 2009

O SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE E O PSD

ANTÓNIO ARNAUT
Por José Niza e... para que conste...
1. A mentira mais descarada, desavergonhada e oportunista da última campanha eleitoral saiu da boca de Manuela Ferreira Leite no frente a frente televisivo com José Sócrates.
Vá lá saber-se porquê, Sócrates tinha o detector de mentiras desligado. E não reagiu. O mesmo aconteceu com os nossos sábios – comentadores e analistas – sem memória que por aí pululam nos jornais, rádios e – sobretudonas televisões, a dizer banalidades e a fazer profecias.
E qual foi a mentira?
O que disse Manuela
?
- Que o PSD sempre apoiou o Serviço Nacional de Saúde!!!
Ao ouvir isto saltei no sofá da sala e desatei aos gritos. A minha mulher até julgou que eu estava a ter um ataque de asma democrática. Indignei-me. Revoltei-me. Chamei à senhora nomes ainda mais feios do que os que João Jardim chama aos jornalistas.
Afirmar, perante um milhão e meio de portugueses, que o PSD sempre apoiou o SNS, é o mesmo que proclamar que Salazar foi anticolonialista. Não é falta de memória, é falta de vergonha.
Mas vamos lá então ver como é que o PSD se comportou quando o SNS foi criado, em 1979, na Assembleia da República.
2. Há dias o António Arnaut telefonou-me: “Ó Niza, vou lançar um livro sobre os 30 anos do SNS e gostava que viesses, até porque tiveste um papel importante na sua criação”. E lá fui até Coimbra, à linda Quinta das Lágrimas.
A sala estava apinhada. Umas trezentas ou quatrocentas pessoas. Nunca vi tanta gente no lançamento de um livro. Gente de todas as cores, ideologias e culturas, da direita ao BE. O António Arnaut fez questão em que eu fosse para a mesa fazer-lhe companhia a ele, ao Dr. Almeida Santos e à Drª Ana Jorge, ministra da Saúde. Manuel Alegre – a convalescer de um internamento hospitalar – enviou um texto sobre a criação e importância social do SNS no qual considera que o maior legado do 25 de Abril e do PS a Portugal foi o Serviço Nacional de Saúde.
Arnaut contou histórias da História do SNS. Por exemplo esta: Quando Mário Soares o convidou para ministro da Saúde do governo PS/CDS ele aceitou. Mas só com a condição de avançar com o SNS. Soares disse que sim. E só mais tarde percebeu que estava metido num saco de gatos.
Nessa altura eu era presidente da Comissão Parlamentar de Saúde e responsável nacional do PS por essa área. E foi nessas duas qualidades que com o Arnaut, o Prof. Mário Mendes, o Prof. Miller Guerra, e outros, deitámos mãos à obra.
A propositura do SNS na AR caiu como uma bomba nas bancadas da direita. O PSD e o CDS reagiram rapidamente e em força! A Ordem dos Médicos/Gentil Martins ameaçava com greves e boicotes. A maioria dos médicos portugueses entrou em pânico, bramando contra a ideia de se transformarem em “funcionários públicos”. Mesmo dentro do PS havia gente hesitante e ambivalente, sensível à demagogia da direita e às ameaças dos médicos. A começar por Mário Soares.
Os debates parlamentares – nos quais participei – foram de cortar à faca. Recordo-me de deputados médicos do PSD e do CDS atacarem o SNS de todas as formas e feitios. Recordo-me até dos principais porta-vozes desse repúdio pelo SNS: Malato Correia e José Ferreira Júnior, pelo PSD. E Rui Oliveira, pelo CDS.
Finalmente, com o apoio do PCP, a tão falada “maioria de esquerda” funcionou. E assim se cumpriu uma das promessas maiores do 25 de Abril e o artigo 64º. Da Constituição (Direito à Saúde) que eu ajudei a redigir.
Voltemos à Quinta das Lágrimas. Depois do lançamento do livro, o jantar: Arnaut, Almeida Santos, Ana Jorge e eu. Enquanto depenicávamos aquelas ficções culinárias a que chamam “nouvelle cuisine”, e sofríamos com as peripécias dramáticas do Portugal-Hungria, o Arnaut e eu abrimos o livro das estórias da História do SNS. Que davam outro livro!

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